Foto: Janela indiscreta - Alfred Hithcock - 1954

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Cinema cheio de som e fúria

Certa vez um taciturno rei Macbeth proferiu a seguinte sentença: “A vida é um conto narrado por um idiota, cheio de som e fúria, significando nada.”. As palavras do protagonista da clássica obra de Shakespeare bem que poderiam ser aplicadas aos filmes de Stanley Kubrick.
Talvez como nenhuma outra, a filmografia do cineasta americano buscou inventariar o que há mais instintivo nos seres humanos. Até mesmo quando retratou a aristocracia da Era Vitoriana em “Barry Lyndon” (1975), ele não se eximiu de expor a irracionalidade “classuda” de um civilizado duelo de pistolas entre convivas. A violência é tratada em seus projetos como algo intrínseco à nossa natureza.
Sua capacidade de mexer com as sensações da plateia também é notável. Como poucos, Kubrick utilizou todos os recursos semióticos à disposição do cinema, sem nunca querer parecer performático. A destreza com que articula sons e imagens pode ser comprovada tanto numa viagem transcendental, por exemplo, na forma como ele põe naves espaciais para bailar, no infinito, ao som de “No Belo Danúbio Azul”, de Johann Strauss, em “2001 – Uma Odisseia” no Espaço (1968), quanto na valorização da simplicidade em colocar o pequeno Danny pedalando, ao som das rodas de seu velocípede, no assoalho do misterioso hotel em “O iluminado” (1980). É latente sua preocupação com casamento perfeito entre som e imagem.
Por ser este blog um veículo regido por uma banda rock (gênero raivoso por natureza) e para atender ao clamor dos leitores, achei interessante falar deste diretor que aliou tão bem música e violência no cinema. Neste sentido,“Laranja Mecânica” (1971) é, talvez, o ponto de interseção. Baseado no romance de Anthony Burgess, o longa trata de um futuro dominado por arruaceiros que passam o tempo cometendo todo tipo de atrocidades. Nada de diferente até aí. O curioso é que Alex (Malcolm MacDowell), líder de uma dessas gangues, é um jovem apaixonado por música, em especial a 9ª Sinfonia de Beethoven. Este, aliás, é apelidado pelo delinquente de “o magnífico Ludwig van” tamanha é sua admiração.
A música, já foi dito, serve para amansar as feras – talvez, por isso esteja presente até nas estações de metrô. No caso de Alex, ela é o complemento ideal para sua satisfação enquanto comete o que ele chama de “a boa e velha ultraviolência”. Não à toa, o rapaz invade a casa de um reacionário escritor e estupra sua mulher enquanto cantarola “Sing in the rain”, canção imortalizada no célebre musical da década de 50. Na verdade, o que temos nesta sequência é um duplo estupro: o da mulher e o da canção. Da mesma forma que Rubem Fonseca nos advertiu, em seu famoso conto “Intestino grosso”, que, na atual conjuntura das grandes cidades, “não dá mais pra Diadorin”, Kubrick parece querer nos dizer que, daqui para frente, também não dá mais “pra” Gene Kelly.
Na segunda metade de “A Clockwork Orange” (no original), Alex é preso e, louco para ganhar de volta sua liberdade, se candidata à cobaia de um novo tratamento antiviolência. Após ingerir vários coquetéis de drogas e assistir ininterruptamente a inúmeros filmes cheios de cenas de barbárie, ele se considera recuperado. Em cena que mais parece tirada de um programa de auditório, o “saudável” Alex é exposto a situações de violência e luxúria as quais, agora, lhe causam náuseas horrendas. Seu corpo, portanto, reage automaticamente ao mal. “Ele não tem escolha! Onde está o livre arbítrio?”, brada alguém da comissão avaliadora do novo sistema. “Ele está pronto para a vida em sociedade.”, sentencia o chefe da instituição. Enfim, a besta está domesticada.
Há, no entanto, uma sequela com a qual o rapaz não contava. Durante o tratamento, tocava em um dos filmes exibidos a sua estimada 9ª de Beethoven. Os médicos não deram a menor trela para os apelos desesperados do jovem que gritava: “Não! O magnífico Ludwig van, não!” e, munidos de seus olhos atentos e bloquinhos de papel em branco, puseram-se à sádica observação científica. Dessa forma, o prazer se transforma em “horror show”.
Assim, Kubrick mostra que a atração pelo grotesco e pelo sublime está presente no espírito humano de modo indissociável. E, pondo os desprezíveis infratores da lei ao alcance de seu controle remoto, este governo totalitário, preocupado somente com os crescentes índices de criminalidade, conseguiu aquilo que os governos anteriores vem tentando realizar desde a Revolução Industrial: transformar homens em máquinas insensíveis. Alex curtia espancar mendigos, mas venerava música clássica. Isto, segundo o diretor, é o demasiadamente humano.
É inegável que, ao retratar a vida nua e crua (palavra esta que, etimologicamente, originou o termo “cruel”), os filmes de Stanley Kubrick , com ou sem narrador, sejam cheios de som e fúria. Contudo, nunca poderemos dizer que eles não significam nada. Nota: 9,0