Foto: Janela indiscreta - Alfred Hithcock - 1954

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Calvário de sapatilhas

Cisne Negro é a confirmação de Darren Aronofsky como o cineasta dos excessos. Sua intenção parece sempre ser a de refletir sobre até que ponto uma busca pode se tornar obsessão. Em Pi, ele analisava a psique de um matemático que mergulha nos números afim de descobrir uma fórmula revolucionária. Já no visceral Réquiem para um sonho, o diretor chafurda na rotina de um grupo de viciados guiados por prazeres escapistas rumo ao fundo do poço. Até mesmo no pouco falado Fonte da vida vemos como o amor desmedido pode mexer com a vida de um homem. Estes exemplos comprovam que sua câmera está sempre à procura de quem está à procura.

E assim também é com este Black Swan (no original). Aqui acompanhamos os passos de uma bailarina de Nova Iorque (vivida com garra por Natalie Portman) que vislumbra se tornar a protagonista de uma nova montagem de O lago dos cisnes. O trabalho é intenso e a dedicação é total pois o diretor da companhia (um provocante Vincet Cassel) quer que sua visão seja arrebatadora. No entanto, ele percebe que falta algo à sua esforçada estrela que, embora possua a delicadeza adequada para viver o cisne branco, ressente de um certo furor selvagem para dar corpo ao cisne negro. Será essa busca pelo seu "outro eu" mais sombrio que levará a protagonista Nina às raias da loucura.

Tudo se complica quando Nina se sente ameaçada por outra bailarina mais "caliente", interpretada por Mila Kunis. Detentora de um sal com pimenta que falta à personagem central, Lily automaticamente começa a se tornar uma escolha mais acertada para o grande papel. Contudo, não é só o ciúme que move Nina. Há um desejo de ser como Lily ou até mesmo ser a própria que nos deixa sem saber em certos momentos se tal mulher existe de verdade. Como o processo de degradação da racionalidade de Nina avança vertiginosamente, podemos estar diante de uma projeção daquilo que ela deveria ser, produzida por sua mente. A explosão desse fetiche acontece numa cena de lesbianismo (ou masturbação?) que poderia ser muito mais acachapante se a mão pesada de Aronofsky não estivesse mais preocupada em criar um clima de terror adolescente.

Assim como os outros personagens do diretor, Nina busca por algo: a perfeição. Porém, como diz seu chefe num determinado momento, a perfeição não é só feita de método. E é esse algo a mais, que difere um gênio do resto, o objeto almejado por Nina. Ela quer ser menos como sua mãe - uma bailarina frustrada que largou os palcos por conta maternidade - e mais como aquela que a precedeu (outro espelho decadente e nada agradável interpretado pela ex-queridinha da América Winona Ryder).

O clima pesado de paranóia que perpassa toda a produção já sucitou as mais diversas comparações. Filmes como Repulsa ao sexo (de Roman Polanski), Videodrome (de David Cronnenberg) e A hora do lobo (de Ingmar Bergman) são só alguns exemplos da cartilha que foi seguida pelo diretor estadunidense. No mais, me parece também pertinente a comparação com A metamorfose, do escritor tcheco Franz Kafka, no que tange à transfiguração de um cidadão pacato em um "monstro horrendo". Nina possui feridas nas costas em que, aos poucos, vão surgindo penas. Sua transformação é gradual e psicológica, mas o diretor a metaforiza de modo nada sutil através de efeitos visuais que vão transformando a textura da pele da personagem e alterando a cor de seus olhos. Só ficou faltando dar-lhe um enorme bico para termos, assim, um Gregor Samsa moderno. Graças aos céus, isso não foi feito!

Está muito claro que Aronofsky se cercou de ótimas referências para alicerçar sua obra. Seu método pretendeu e conseguiu atingir um alto grau de qualidade técnica. Contudo, assim como a Nina, falta-lhe a genialidade de seus mestres na transposição do desespero para a plateia. Se em "Réquiem" a montagem clipada auxiliava na exposição da atmosfera delirante em que viviam os junkies, em Cisne Negro o máximo que ele consegue com a fotografia escura de Michael Libatike e a câmera colada nos atores são alguns sustinhos bem ao estilo A hora do pesadelo. Logo, a ideia de cineasta dos excessos pode ganhar uma nova acepção bem menos elogiosa.

Nina quis alçar um grande voo e se esborrachou. Aronofsky também se lançou, sem medo, tal como seus personagens, em busca de um objetivo. Porém, seu lado cisne negro bateu asas e também não voou. Nota: 6,0

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Ainda sim Buñuel

Pilar maior do surrealismo cinematográfico, Luis Buñuel constrói com extrema elegância e competência mais um retrato fiel do fracasso moral burguês neste filme que, na construção do enredo, pouco remete aos seus trabalhos mais famosos. A predileção por contar uma história de forma linear pode fazer com que muitos não o considerem parte do movimento encabeçado pelo cineasta. No entanto, temas como o já citado vazio burguês, o sexo (usado muitas vezes para fugir desse vazio) e a crítica ao clericalismo continuam tendo presença marcante.
Obra de 1964, ano em que Buñuel voltava à Europa após anos radicado no México, Diário de uma camareira (Le journal d'une femme de chambre, no original)conta a história de Celestine, uma empregada que chega para trabalhar na mansão de uma rica família contituída pelo casal Monteil e velho pai da dona da casa. Aliás, cuidar do velho é sua maior incumbência. Contudo, ela vai descobrir que trabalhoso mesmo vai ser administrar a implicância da patroa e fugir das investidas do libidinoso Sr. Monteil, uma taradão enveterado que não aguenta mais a frieza glacial da esposa.
Quase nada além disso nos lembra o estilo desconcertante do diretor. Não há na sua forma elementos que o liguem, por exemplo, a "O anjo exterminador", obra máxima que o consagrou como um dos maiores da história. Talvez por se tratar de um diário - não na acepção fiel do termo - e por falar de uma rotina tão massante, Buñuel tenha preferido evitar o tom mais insólito (com exceção da curiosa obsessão por sapatos do velho Monteil) em busca de prosaísmo aterrador que pode surpreender os que conhecem seus trabalhos anteriores. Os planos e a bela fotografia (luminosa, com poucos contrastes)revelam um encaixe perfeito entre conteúdo e opções estéticas.
Mas é quando uma menina é assassinada no bosque da propriedade dos Monteil que Buñuel mostra sua genialidade. Numa clara alusão à história da Chapeuzinho Vermelho, ele nos expõe que numa atmosfera tão cheia de desejos reprimidos não há lugar para a pureza e a inocência. Celestine entende o recado e começa a lançar mão de uma malícia até então desconhecida por nós, com o intuito de descobrir a verdadeira identidade do Lobo Mau. Seu ardil final é a prova de que lobos somos todos. Nota: 7,0