Foto: Janela indiscreta - Alfred Hithcock - 1954

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Ainda sim Buñuel

Pilar maior do surrealismo cinematográfico, Luis Buñuel constrói com extrema elegância e competência mais um retrato fiel do fracasso moral burguês neste filme que, na construção do enredo, pouco remete aos seus trabalhos mais famosos. A predileção por contar uma história de forma linear pode fazer com que muitos não o considerem parte do movimento encabeçado pelo cineasta. No entanto, temas como o já citado vazio burguês, o sexo (usado muitas vezes para fugir desse vazio) e a crítica ao clericalismo continuam tendo presença marcante.
Obra de 1964, ano em que Buñuel voltava à Europa após anos radicado no México, Diário de uma camareira (Le journal d'une femme de chambre, no original)conta a história de Celestine, uma empregada que chega para trabalhar na mansão de uma rica família contituída pelo casal Monteil e velho pai da dona da casa. Aliás, cuidar do velho é sua maior incumbência. Contudo, ela vai descobrir que trabalhoso mesmo vai ser administrar a implicância da patroa e fugir das investidas do libidinoso Sr. Monteil, uma taradão enveterado que não aguenta mais a frieza glacial da esposa.
Quase nada além disso nos lembra o estilo desconcertante do diretor. Não há na sua forma elementos que o liguem, por exemplo, a "O anjo exterminador", obra máxima que o consagrou como um dos maiores da história. Talvez por se tratar de um diário - não na acepção fiel do termo - e por falar de uma rotina tão massante, Buñuel tenha preferido evitar o tom mais insólito (com exceção da curiosa obsessão por sapatos do velho Monteil) em busca de prosaísmo aterrador que pode surpreender os que conhecem seus trabalhos anteriores. Os planos e a bela fotografia (luminosa, com poucos contrastes)revelam um encaixe perfeito entre conteúdo e opções estéticas.
Mas é quando uma menina é assassinada no bosque da propriedade dos Monteil que Buñuel mostra sua genialidade. Numa clara alusão à história da Chapeuzinho Vermelho, ele nos expõe que numa atmosfera tão cheia de desejos reprimidos não há lugar para a pureza e a inocência. Celestine entende o recado e começa a lançar mão de uma malícia até então desconhecida por nós, com o intuito de descobrir a verdadeira identidade do Lobo Mau. Seu ardil final é a prova de que lobos somos todos. Nota: 7,0

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