O cinema proposto pelo dinamarquês Lars von Trier é daqueles que pode causar excitação em uns e repulsa em outros, mas uma coisa é certa: o espectador jamais ficará indiferente ao que se passa na tela.Ganhando destaque no cenário mundial desde o premiado Europa (1990), o cineasta parece ter sido o único que sobreviveu com o fim do Dogma 95, movimento que propunha um cinema avesso aos artificialismos próprios dos produtos hollywoodianos. Aliás, foi ao subverter um dos gêneros mais característicos da Era de Ouro de Hollywood, o musical, que Lars viu sua obra ser encarada como uma das mais instigantes da atualidade. Dançando no escuro (2001), que traz uma Bjork potente não só na voz estreando como atriz, joga melancolia e pessimismo no confete eternizado por grandes produções como Cantando na chuva e Sinfonia em Paris.

Dando um tempo de seu projeto sobre a sociedade americana - que começou com Dogville (2003) e seguiu com Manderlay (2004) - o cineasta volta às rodas de conversa de cinéfilos do mundo todo com este seu Anticristo. Fazia muito tempo que um filme não causava tanta polêmica por conta de suas chocantes cenas de sexo (algumas vezes explìcito) e pelo clima desolador de sua trama.
Assim como fez com as duas partes da saga de Grace, o diretor optou por dividir o enredo do longa em capítulos, tendo seu prólogo como um dos momentos mais belos do cinema nos últimos anos. Daí em diante, acompanhamos o processo de degradação de um casal que sofre horrores com a culpa pela morte de seu único filho e sua tentativa de superar o trauma.
Vividos por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg (vencedora do Prêmio de Melhor Atriz em Cannes), os únicos personagens da história resolvem se refugiar num sítio sugestivamente chamado Éden (impossível não pensar em Adão e Eva) para sair de seu inferno pessoal. Ele é psicólogo e acha que pode, através de um distanciamento improvável, retirar a dor de dentro de sua esposa, quem mais se abateu com a tragédia.
No entanto, percebemos que sua inglória missão está fadada ao fracasso devido à impossibilidade da mulhe
r em se entregar mais uma vez ao prazer e à alegria. O já citado prólogo, com uso perfeito da câmera lenta e da música de Händel, mostra a simultaneidade da morte do menino com o casal fazendo amor, com direito a um close do rosto da mulher no instante do orgasmo. Logo, enquanto o filho caía da janela aberta pelo vento, a mãe se entregava aos prazeres da carne. O sexo ganha aqui facetas entre prazer e dor difíceis de administrar.
r em se entregar mais uma vez ao prazer e à alegria. O já citado prólogo, com uso perfeito da câmera lenta e da música de Händel, mostra a simultaneidade da morte do menino com o casal fazendo amor, com direito a um close do rosto da mulher no instante do orgasmo. Logo, enquanto o filho caía da janela aberta pelo vento, a mãe se entregava aos prazeres da carne. O sexo ganha aqui facetas entre prazer e dor difíceis de administrar.Com planos abertos que remetem aos quadros do pintor flamengo Hieronymus Bosch (1450-1516), em que tentação e pecado serviam como tema principal, o filme expõe a fragilidade do ser humano e a sua propensão para a autodestruição. O discernimento racional vai sucumbindo diante do instinto animal inerente ao homo sapiens, culminando em atos de mutilação que beiram o grotesco. Assim, não é de se estranhar o fato de o marido em certos momentos se comunicar com os bichos da floresta.
Portanto, está claro que Lars von Trier não quer unanimidade - que, alías, já foi dito, é burra. Com sua estética do choque ele pretende sacudir o pacato cidadão que há em nós, trabalhando a questão humana de forma visceral e sem medo de causar turbulência em voos tranquilos. Cinema fértil, apto a gerar discussões. Nota: 8,0
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