Foto: Janela indiscreta - Alfred Hithcock - 1954

sábado, 19 de novembro de 2011

O sorriso triste do palhaço

O palhaço navega no mesmo mar de papel crepon em que Fellini nos afogou inúmeras vezes em obras como A estrada da vida, Amacord e La nave va.
Ao contar a história de um palhaço que "perde a graça", Selton Mello nos brinda com um filme que alterna alegria e melancolia na medida certa. Auxiliado por um ótimo elenco de apoio (com destaque para os veteranos Paulo José, Tonico Pereira e Moacir Franco), o ator e diretor segue firme como um dos principais nomes da arte cinematográfica da América Latina.



Fica evidente em seu trabalho por trás das câmeras a influência estética herdada do período que passou em companhia de Luiz Fernando Carvalho nas filmagens da obra-prima Lavoura Arcaica - a primeira entrada de Lola (o pecado feito carne) é prova disso - e a já declarada reverência temática pelo recente cinema argentino, em especial o de Lucrecia Martel.



O sorriso por vezes despedaçado que O palhaço arranca de nós justifica-se por se tratar de uma história sobre a busca pela identidade. Pangaré, o personagem principal, questiona-se acerca da vida que leva, sem paradeiro fixo. No bolso, carrega apenas a certidão de nascimento pra lá de surrada. Não possui RG nem comprovante de residência e tão pouco um amor que lhe baste. Não sabe ao certo se é dono da própria vida ou se apenas segue o sonho do pai, o palhaço Puro Sangue, com quem divide o palco e admistração do circo Esperança. Palavra esta que, aliás, é personificada pela presença quase etérea de uma menina que acompanha a mãe integrante da trupe. Tal recurso já aparecera na estreia de Selton como realizador, o belo Feliz Natal.



Bonito em seu equilíbrio no trapézio da dramaturgia a que se propõe, O palhaço se resume na pergunta lapidada por seu protagonista nos pedregulhos da estrada que levam à ternura e ao amargor: "Eu tenho que fazer todo mundo rir, mas... quem é que vai me fazer rir?". Bye, bye riso fácil!

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O deus que aprendeu a ser herói

Há de se tirar o chapéu para os executivos da Marvel. Os caras tiveram a maior sacada financeira da indústria cinematográfica em décadas: preparar o público para algo grandioso, soltando aos poucos pequenas grandiosidades.


Este Thor é mais um "capítulo" do projeto Os vingadores que já contou com as bem-sucedidas carreiras de Homem de ferro (e suas sequências) e O incrível Hulk e que ainda contarão com os aguardadíssimos Capitão América: O primeiro vingador e The Amazing Spider Man. Do ponto de vista mercadológico, a ideia é brilhante, isso não se pode negar.


No entanto, de nada adiantaria lançar os pomos de apresentação de cada um desses personagens e decepcionar o público com eles. Seria um tremendo tiro no pé. Por isso, cada uma das aventuras de iniciação nos personagens mereceu um cuidado especial e, contando com elencos estelares e efeitos de primeira, caíram nas graças do grande público. No que tange à saga do filho de Odin não foi diferente.


Escalando surpreendentemente Kenneth Brannagh (Henrique V, Frankestein de Mary Shelley e Hamlet) para comandar este espetáculo shakesperiano repleto de intrigas palacianas, os engravatados dos quadrinhos mostraram que, além de entreter, também estão preocupados em dar maior profundidade psicológica a suas galinhas dos ovos de ouro, quer dizer, seus personagens. E realmente foi um baita acerto, inclusive nas sequências de ação - motivo de certo receio por parte deste que vos escreve.


O que vemos na tela é a formação de um herói a partir de um deus. Calma, não estou insinuando que haja uma degradação entre os dois conceitos. Mas para quem já estudou um pouco de mitologia (principalmente a grega) vai ver que nem sempre os imortais supremos tomam atitudes louváveis. E devido ao enorme poder que ostentam as consequências de seus erros ganham em magnitude.


Às véperas de se tornar rei, Thor é banido por colocar a paz entre os reinos celestes em perigo ao agir de modo destemperado. Ele será obrigado a aprender a ser gente como a gente aqui na Terra. Enquanto isso, seu invejoso irmão caçula Loki faz de tudo para mantê-lo no exílio ao passo que se prepara para assumir seu lugar ao trono. Neste embate, repito, torna-se fundamental a presença de Brannagh no comando do projeto. Só um profundo conhecedor do maior poeta inglês conduziria temas como ambição, inveja e nobreza com tamanha habilidade, tendo tantos outros elementos que uma aventura deste quilate comporta para se ocupar.


As idas e vindas entre os mundos podem quebrar um pouco a unidade do filme, mas a boa mistura entre humor e ação, salpicados de romance, tornam essa falha do roteiro quase imperceptível. Além disso, o elenco capitaneado por Anthony Hopkins e auxiliado pela recém oscarizada Natalie Portmam dão conta do recado, por mais difícil que possa ser dar qualquer nuance de interpretação em longas tão movimentados. Por sua vez, Chris Hemsworth (Star Trek) defende bem seu papel título, salientado corretamente a passagem do deus egoísta e irresponsável para o herói justo e altruísta. Já Stellan Skarsgard e Kat Dennings seguram na boa a carga cômica da história. Um filme poderoso como o martelo de Thor e como o apelo comercial dos heróis dos quadrinhos. (Nota: 7,0)























sábado, 26 de fevereiro de 2011

Calvário de sapatilhas

Cisne Negro é a confirmação de Darren Aronofsky como o cineasta dos excessos. Sua intenção parece sempre ser a de refletir sobre até que ponto uma busca pode se tornar obsessão. Em Pi, ele analisava a psique de um matemático que mergulha nos números afim de descobrir uma fórmula revolucionária. Já no visceral Réquiem para um sonho, o diretor chafurda na rotina de um grupo de viciados guiados por prazeres escapistas rumo ao fundo do poço. Até mesmo no pouco falado Fonte da vida vemos como o amor desmedido pode mexer com a vida de um homem. Estes exemplos comprovam que sua câmera está sempre à procura de quem está à procura.

E assim também é com este Black Swan (no original). Aqui acompanhamos os passos de uma bailarina de Nova Iorque (vivida com garra por Natalie Portman) que vislumbra se tornar a protagonista de uma nova montagem de O lago dos cisnes. O trabalho é intenso e a dedicação é total pois o diretor da companhia (um provocante Vincet Cassel) quer que sua visão seja arrebatadora. No entanto, ele percebe que falta algo à sua esforçada estrela que, embora possua a delicadeza adequada para viver o cisne branco, ressente de um certo furor selvagem para dar corpo ao cisne negro. Será essa busca pelo seu "outro eu" mais sombrio que levará a protagonista Nina às raias da loucura.

Tudo se complica quando Nina se sente ameaçada por outra bailarina mais "caliente", interpretada por Mila Kunis. Detentora de um sal com pimenta que falta à personagem central, Lily automaticamente começa a se tornar uma escolha mais acertada para o grande papel. Contudo, não é só o ciúme que move Nina. Há um desejo de ser como Lily ou até mesmo ser a própria que nos deixa sem saber em certos momentos se tal mulher existe de verdade. Como o processo de degradação da racionalidade de Nina avança vertiginosamente, podemos estar diante de uma projeção daquilo que ela deveria ser, produzida por sua mente. A explosão desse fetiche acontece numa cena de lesbianismo (ou masturbação?) que poderia ser muito mais acachapante se a mão pesada de Aronofsky não estivesse mais preocupada em criar um clima de terror adolescente.

Assim como os outros personagens do diretor, Nina busca por algo: a perfeição. Porém, como diz seu chefe num determinado momento, a perfeição não é só feita de método. E é esse algo a mais, que difere um gênio do resto, o objeto almejado por Nina. Ela quer ser menos como sua mãe - uma bailarina frustrada que largou os palcos por conta maternidade - e mais como aquela que a precedeu (outro espelho decadente e nada agradável interpretado pela ex-queridinha da América Winona Ryder).

O clima pesado de paranóia que perpassa toda a produção já sucitou as mais diversas comparações. Filmes como Repulsa ao sexo (de Roman Polanski), Videodrome (de David Cronnenberg) e A hora do lobo (de Ingmar Bergman) são só alguns exemplos da cartilha que foi seguida pelo diretor estadunidense. No mais, me parece também pertinente a comparação com A metamorfose, do escritor tcheco Franz Kafka, no que tange à transfiguração de um cidadão pacato em um "monstro horrendo". Nina possui feridas nas costas em que, aos poucos, vão surgindo penas. Sua transformação é gradual e psicológica, mas o diretor a metaforiza de modo nada sutil através de efeitos visuais que vão transformando a textura da pele da personagem e alterando a cor de seus olhos. Só ficou faltando dar-lhe um enorme bico para termos, assim, um Gregor Samsa moderno. Graças aos céus, isso não foi feito!

Está muito claro que Aronofsky se cercou de ótimas referências para alicerçar sua obra. Seu método pretendeu e conseguiu atingir um alto grau de qualidade técnica. Contudo, assim como a Nina, falta-lhe a genialidade de seus mestres na transposição do desespero para a plateia. Se em "Réquiem" a montagem clipada auxiliava na exposição da atmosfera delirante em que viviam os junkies, em Cisne Negro o máximo que ele consegue com a fotografia escura de Michael Libatike e a câmera colada nos atores são alguns sustinhos bem ao estilo A hora do pesadelo. Logo, a ideia de cineasta dos excessos pode ganhar uma nova acepção bem menos elogiosa.

Nina quis alçar um grande voo e se esborrachou. Aronofsky também se lançou, sem medo, tal como seus personagens, em busca de um objetivo. Porém, seu lado cisne negro bateu asas e também não voou. Nota: 6,0

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Ainda sim Buñuel

Pilar maior do surrealismo cinematográfico, Luis Buñuel constrói com extrema elegância e competência mais um retrato fiel do fracasso moral burguês neste filme que, na construção do enredo, pouco remete aos seus trabalhos mais famosos. A predileção por contar uma história de forma linear pode fazer com que muitos não o considerem parte do movimento encabeçado pelo cineasta. No entanto, temas como o já citado vazio burguês, o sexo (usado muitas vezes para fugir desse vazio) e a crítica ao clericalismo continuam tendo presença marcante.
Obra de 1964, ano em que Buñuel voltava à Europa após anos radicado no México, Diário de uma camareira (Le journal d'une femme de chambre, no original)conta a história de Celestine, uma empregada que chega para trabalhar na mansão de uma rica família contituída pelo casal Monteil e velho pai da dona da casa. Aliás, cuidar do velho é sua maior incumbência. Contudo, ela vai descobrir que trabalhoso mesmo vai ser administrar a implicância da patroa e fugir das investidas do libidinoso Sr. Monteil, uma taradão enveterado que não aguenta mais a frieza glacial da esposa.
Quase nada além disso nos lembra o estilo desconcertante do diretor. Não há na sua forma elementos que o liguem, por exemplo, a "O anjo exterminador", obra máxima que o consagrou como um dos maiores da história. Talvez por se tratar de um diário - não na acepção fiel do termo - e por falar de uma rotina tão massante, Buñuel tenha preferido evitar o tom mais insólito (com exceção da curiosa obsessão por sapatos do velho Monteil) em busca de prosaísmo aterrador que pode surpreender os que conhecem seus trabalhos anteriores. Os planos e a bela fotografia (luminosa, com poucos contrastes)revelam um encaixe perfeito entre conteúdo e opções estéticas.
Mas é quando uma menina é assassinada no bosque da propriedade dos Monteil que Buñuel mostra sua genialidade. Numa clara alusão à história da Chapeuzinho Vermelho, ele nos expõe que numa atmosfera tão cheia de desejos reprimidos não há lugar para a pureza e a inocência. Celestine entende o recado e começa a lançar mão de uma malícia até então desconhecida por nós, com o intuito de descobrir a verdadeira identidade do Lobo Mau. Seu ardil final é a prova de que lobos somos todos. Nota: 7,0

domingo, 2 de janeiro de 2011

Simples assim

Existem filmes que não precisam de muita coisa para deixar o espectador feliz. Eles nos mostram que, às vezes, a simplicidade é a melhor qualidade de uma produção. Projetos como Por uma vida melhor (Away we go, no original), do diretor inglês Sam Mendes (responsável pelo premiado Beleza Americana e pela obra-prima Estrada para a Perdição), acertam no seu pacto com a humildade. Não há grandes astros, reviralvoltas mirabolantes no roteiro e tão pouco efeitos visuais revolucionários que façam o público ter espasmos nas poltronas do cinema. O que há é uma história agradável, bons atores nos papéis certos e uma trilha folk pra lá de simpática.
O ponto de partida deste road movie se dá quando Burt e sua namorada grávida Verona decidem chutar o balde de suas vidas medíocres e ir em busca de um lugar onde o novo clã possa crescer e se multiplicar. A ideia é visitar parentes e amigos para que, assim, eles identifiquem qual o melhor modelo de família a seguir. Não demora muito para o casal de protagonistas, vividos com muita graça por John Krasinski e Maya Rudolph, entenda que a família perfeita não existe.
Embora o ritmo das situações criadas pelos roteiristas Dave Eggers e Vendela Vida demore um pouco a engrenar, com exceção da excelente participação de Catherine O'Hara e Jeff Daniels, como os pais excêntricos de Burt, é impossível se empedernir diante do percurso cativante exposto na tela.
No entanto, engana-se quem acredita que Sam Mendes abandonou sua verve crítica em relação ao american way of life, tema tão caro a sua obra. Mesmo um tanto diluídos na candura dos personagens principais, a acidez e o amargor de Foi apenas um sonho, seu último drama famíliar, ainda se fazem presentes em vários momentos. Ao final desta viagem, o cineasta parace querer nos dizer que estamos sempre voltando para algum lugar e que um lar não possui moldes pré-determinados, existindo sempre onde houver pessoas dispostas a compartilhar sonhos. Nota: 7,0