O cineasta franco-suiço Jean-Luc Godard já disse que Alfred Hitchcock foi o único poeta maldito a conhecer o sucesso. Isto talvez se deva ao fato de ele ter sido o diretor que melhor conseguiu conciliar arte e entretenimento ao longo de seus mais de sessenta filmes.Uma de suas inúmeras frases célebres dizia que a duração de uma projeção deve se adequar a capacidade de resistência da bexiga humana. Isso mostra que, diferente de muitos artistas que acham que não trabalham para os outros, o inglês bonachão dava uma baita importância àqueles que se sentavam nas poltronas dos cinemas. Além disso, o que diferencia Hitchcock dos demais é justamente sua habilidade ímpar em manipular emoções. Esta era a sua arte. E para tal, ele foi capaz de criar as tomadas mais inusitadas e eletrizantes da história, sem nunca abdicar da profundidade dos personagens que apresenta.
No último mês de abril fez trinta anos que seu corpo rechonchudo exalou o último suspiro e ele ainda faz ventar no estilo narrativo de diversos filmes da recente safra cinematográfica mundo a fora. Não importa se o diretor é estreante (David Kroepp, em A Janela Secreta) ou tarimbado (Robert Zemeckis, em Revelação e David Fincher, em O quarto do pânico), o fantasma do “hitchcockiano” está vez ou outra pairando por diversos sets. Se o produto é fruto da intenção de se fazer uma homenagem séria e honrosa ou do mais descarado oportunismo, aí já é outra história. Geralmente, o resultado ou é Brian De Palma ou é M. Night Shyamalan. Há gosto para tudo.

O enorme e necessário preâmbulo acima tem como intuito contextualizar a chagada às telas brasileiras da mais nova prova de que o “toque de Hitch” nunca sai de moda. Com Ilha do medo (Shutter Island, no original), o veterano Martin Scorsese busca atualizar seu estudo sobre a violência pondo na linha de frente Um corpo que cai – obra máxima de Hitchcock – e O iluminado, de Stanley Kubrick, como principais referências. Do primeiro, Scorsese filtra os efeitos de uma obsessão na vida de um detetive (aqui James Stewart dá lugar a um convincente Leonardo DiCaprio) que é encarregado de investigar o desaparecimento de uma assassina dentro de um hospital psiquiátrico. Do segundo, aquele que é considerado o maior diretor americano vivo (Steven Spielberg, Clint Eastwood e Woody Allen discordam) transpõe a sufocante sensação de isolamento, que fazia do Hotel Overlook quase um personagem, para a tal Ilha Shutter do título em inglês.
Desta equação explosiva, eu esperava o evento do ano, afinal, sou fã incondicional dos três. No entanto, o que temos é só um trabalho acima da média para os padrões atuais de Hollywood, mas que carece exatamente daquilo que os homenageados mais dispunham: inventividade.
Na verdade, faltou a Scorsese – a terceira ponta do triângulo – aquele coelho que sai da cartola e surpreende a todos na plateia, e que em Cabo do medo – seu primeiro flerte com a obra do mestre – procriava aos montes. Se não fosse a excepcional montagem de Thelma Schoonmaker (colaboradora habitual do diretor) e a arrepiante trilha sonora (com supervisão de Robbie Robertson, ex-The Band), o longa-metragem, baseado no romance Paciente 67, de Dennis Lehanne, seria mais uma “homenagem” que nada acrescenta ao gênero que elegeu Hitchcock seu ícone supremo.
Aliás, a expressão pra lá de batida “mestre do suspense” está para Alfred Hitchcock como a expressão “maior escritor brasileiro” está para Machado de Assis. Funcionam apenas como rótulos redutores de talentos monstruosos acima de qualquer classificação. Além dos imitadores, o que ambos têm em comum é o modo irônico como enxergam aqueles que são alvo de suas “lentes”.



O cinema do autor das duas versões de O homem que sabia demais está para muito além do mero suspense. Com uma inquietação formal que continua ditando caminhos estéticos, ele promove uma análise do comportamento humano frente às contradições da vida, seja em situações apavorantes entre algozes e vítimas, seja em situações aparentemente prosaicas entre homens e mulheres. Diferente de Kubrick e Scorsese (nessa ordem), sua elegância britânica apenas insinua a violência, jamais a escancara. A sequência do assassinato em Disque M para matar, por exemplo, não despende uma única gota de sangue (mesmo havendo um tesourão em cena!) e consegue ser uma das mais lembradas de todos os tempos.
Parece que Godard tinha realmente razão e, seguindo seu raciocínio, podemos dizer que todos os que visam obter sucesso comercial, sem descuidar da opinião dos especialistas, recorrem ao Manual Hitchcock para fazer cinema. Às vezes dá certo, às vezes não. O fato é que, com Ilha do medo, Martin Scorsese conseguiu a maior bilheteria de um filme seu em décadas nos EUA, com pouquíssimos críticos torcendo o nariz. Ninguém pode culpá-lo. Contudo, esperava-se um pouco mais de coragem de alguém que domina tão bem o ofício. Nota: 6,5
Nenhum comentário:
Postar um comentário