"Esta noite eu tive um sonho. Sonhei que era pai. Não tinha filhos espalhados por aí... era mais uma sensação... Dá para entender? Como quando se sonha que está caindo ou voando... uma sensação de querer abraçar alguém... mas sem saber por quê." O que você acabou de ler agora é a reprodução da fala final do protagonista do filme O abraço partido (El abrazo partido, 2003), dirigido habilmente pelo novo menino prodígio do cinema argentino, Daniel Burman. Seu longa (com o qual me identifiquei deveras) descortina aos poucos a história de Ariel, um jovem que vive com sua mãe numa comunidade judaíca (não, não sou circucidado) da grande Buenos Aires.
O rapaz leva uma vida aparentemente normal: ajuda na administração da loja da família, namora, estuda, etc. Contudo, Ariel sente que falta algo: a figura de seu pai - que foi para uma guerra na década de 70 e nunca mais voltou. Além disso, no alto de seus vinte e poucos anos, ele acha que já é hora de buscar sua independência. Tanto que ele procura o consulado polonês para tirar um visto e, assim, poder viajar para a europa onde pretende retomar os estudos. Mas, o que Ariel irá aprender é que não dá para vislumbrar um futuro sem antes solucionar questões do passado.
O filme, que confirma a boa fase do cinema "hermano", não é apenas um belo drama familiar. O mosaico cultural que Burman pincela na galeria onde está a loja de lingerie da mãe de Ariel serve como metonímia para uma Argentina plural, mergulhada numa séria crise financeira. A falência é um medo que habita a atmosfera de cada loja da galeria e, na falta de momentos de alegria, o jeito é fabricá-los se entusiasmar com uma alucinada corrida de carregadores. O lúdico aplacando a desesperança.

Não podemos esquecer, todavia, que o eixo central de O Abraço partido é a relação (ou a falta dela) de Ariel com seu pai. E é justamente nessa inusitada corrida que tal fantasma ganha carne e osso bem diante de seus olhos. O jovem nota uma curiosa e metafórica peculiaridade: o homem que aparece à sua frente não possui um dos braços, provavelmente, herança de alguma batalha. Fica-nos, então, a impressão de que o que foi arrancado de um e de outro não volta mais. Anos de hiato não podem ser resumidos em minutos de conversa. Há muito o que dizer e o silêncio se mostra bem eloquente. Isso fica bem claro na cena do primeiro encontro entre os dois. Ao sair da galeria, Ariel topa com o pai e começa a correr enquanto este tenta segui-lo a todo custo. Não há troca de palavras ou olhares. Só um triste som de violino os acompanha.
Ao final do filme, percebemos que um meio abraço já é o suficiente para purgar, se não todas, ao menos algumas das ranhuras causadas por anos de distância e pelo vazio de um lugar sempre à espera de seu ocupante. E se esse lugar será preenchido de novo, somente o tempo guarda (a sete chaves) a resposta. O mais sensato, claro, seria dizer que não.

Termino este primeiro post com uma pequena e rara (eu prometo) confissão autobiográfica: atualmente, encontro-me com vinte e oito anos e não tenho filhos. Posso dizer que também não tive pai. Só que, ao contrário do se passou na história de Ariel, a ausência era de corpo presente. Agora, não é mais. Este mês faz três anos que sua falta é completa. Não conheci o seu abraço. E como ainda não sonho em ser pai, uma criança vai esperar para conhecer o meu. Portanto, acredito que vou continuar com a mesma sensação que aflige Ariel: a de querer abraçar alguém, porém, sabendo o porquê. Nota: 7,0
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