Foto: Janela indiscreta - Alfred Hithcock - 1954

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Um diretor de aluguel

Hoje em dia, há poucas cinematografias que podemos chamar de autorais. Raros são os diretores que tentam imprimir um pouco de singularidade em seus projetos. O cinemão americano sempre foi muito eficaz em oferecer filmes pasteurizados em que pouco importava o nome por trás das câmeras, e até mesmo os talentos estrangeiros que lá chegam não conseguem manter sua assinatura, reprimindo, assim, sua verve artística em prol de uma uniformização lucrativa. Aqueles que conseguem seguir na contramão desse movimento reducionista acabam se tornando verdadeiros oásis em meio ao deserto criativo que impera não só no cinema, mas na arte contemporânea.
Tim Burton é um desses caras cujo nome já virou sinônimo de um jeito específico de composição. Desde seu surgimento com As Grandes Aventuras de Pee Wee (1985) até a sua afirmação como autor em Edward Mãos de Tesoura (1990) - ainda hoje um de seus melhores trabalhos - o diretor transformou o visual gótico de seus longas numa marca registrada. Alternando projetos mais pessoais (Ed Wood) com grandiosas empreitadas (Batman e Batman – O retorno), sempre foi possível ao olhar mais atento detectar a sua “presença”.
No entanto, nos últimos anos parece que passamos a conhecer um outro Tim Burton. Um cineasta que ainda mantém um rigor técnico, mas que suplanta sua criatividade diante das imposições dos grandes produtores. Foi assim com o decepcionante Planeta dos Macacos (2001), e o mesmo acontece com sua visão de Alice no País das Maravilhas – curiosamente, releituras que geraram enorme expectativa tamanha a moral do diretor.
O carnaval pretensamente lúdico desta nova adaptação para as telas dos livros de Lewis Carroll (foi feita uma junção de enredos e personagens entre a obra já citada e Alice através do espelho) nem de longe traz os melhores momentos da parceria entre Tim e seu ator/fetiche Johnny Depp, iniciada há dezesseis anos com “Edward”. É clara a intenção de fazer do filme mais um veículo para as excentricidades do ator e, por isso, seu Chapeleiro Maluco ganha mais espaço na trama, recebendo contornos de protagonista.

Soluções técnicas de gosto duvidoso à parte (incluo aí o uso do 3-D), creio que nada decepcione mais do que o roteiro. Saído das mesmas mãos que cunharam a saga de Simba em Rei Leão, este parece feito sob medida para crianças que não podem perder o foco enquanto se deleitam com o arco-íris padrão Disney pintado em cores fortes na tela. Como se isso não bastasse, durante o filme inteiro somos preparados para aquela batalha final entre o bem e o mal que, provavelmente, consta no manual dos filmes de aventura hollywoodianos. Um “clímax” que empolga menos do que qualquer montanha-russa tosca dos parques de Mickey Mouse.
O único alento, talvez, seja a revelação de Mia Wasikowska. A atriz australiana defende com garra uma Alice já crescida às voltas com um casamento arranjado para salvar os negócios da família. Além disso, Helena Boham-Carter (esposa do diretor) está impagável na pele da tresloucada e cabeçuda Rainha Vermelha, mostrando novamente que é uma das atrizes mais interessantes do momento.

Espero que, para os próximos projetos, o bom e velho Tim Burton volte e reviva os instantes de originalidade conseguidos nos ótimos A lenda do cavaleiro sem cabeça (1999) e Peixe Grande (2003), quando o apuro técnico vinha aliado a grandes interpretações e roteiros inspirados. Para tal, será necessário que ele não permita que os magnatas dos grandes estúdios, com interesses meramente mercadológicos, balancem suas cabeças diante de alguma ideia extravagante. Se isso acontecer e algum se meter à besta, tomara que o cineasta tenha coragem suficiente para incorporar a famigerada Rainha Vermelha e gritar bem alto: Cortem-lhe a cabeça! Nota: 4,0

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