Foto: Janela indiscreta - Alfred Hithcock - 1954

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Calvário de sapatilhas

Cisne Negro é a confirmação de Darren Aronofsky como o cineasta dos excessos. Sua intenção parece sempre ser a de refletir sobre até que ponto uma busca pode se tornar obsessão. Em Pi, ele analisava a psique de um matemático que mergulha nos números afim de descobrir uma fórmula revolucionária. Já no visceral Réquiem para um sonho, o diretor chafurda na rotina de um grupo de viciados guiados por prazeres escapistas rumo ao fundo do poço. Até mesmo no pouco falado Fonte da vida vemos como o amor desmedido pode mexer com a vida de um homem. Estes exemplos comprovam que sua câmera está sempre à procura de quem está à procura.

E assim também é com este Black Swan (no original). Aqui acompanhamos os passos de uma bailarina de Nova Iorque (vivida com garra por Natalie Portman) que vislumbra se tornar a protagonista de uma nova montagem de O lago dos cisnes. O trabalho é intenso e a dedicação é total pois o diretor da companhia (um provocante Vincet Cassel) quer que sua visão seja arrebatadora. No entanto, ele percebe que falta algo à sua esforçada estrela que, embora possua a delicadeza adequada para viver o cisne branco, ressente de um certo furor selvagem para dar corpo ao cisne negro. Será essa busca pelo seu "outro eu" mais sombrio que levará a protagonista Nina às raias da loucura.

Tudo se complica quando Nina se sente ameaçada por outra bailarina mais "caliente", interpretada por Mila Kunis. Detentora de um sal com pimenta que falta à personagem central, Lily automaticamente começa a se tornar uma escolha mais acertada para o grande papel. Contudo, não é só o ciúme que move Nina. Há um desejo de ser como Lily ou até mesmo ser a própria que nos deixa sem saber em certos momentos se tal mulher existe de verdade. Como o processo de degradação da racionalidade de Nina avança vertiginosamente, podemos estar diante de uma projeção daquilo que ela deveria ser, produzida por sua mente. A explosão desse fetiche acontece numa cena de lesbianismo (ou masturbação?) que poderia ser muito mais acachapante se a mão pesada de Aronofsky não estivesse mais preocupada em criar um clima de terror adolescente.

Assim como os outros personagens do diretor, Nina busca por algo: a perfeição. Porém, como diz seu chefe num determinado momento, a perfeição não é só feita de método. E é esse algo a mais, que difere um gênio do resto, o objeto almejado por Nina. Ela quer ser menos como sua mãe - uma bailarina frustrada que largou os palcos por conta maternidade - e mais como aquela que a precedeu (outro espelho decadente e nada agradável interpretado pela ex-queridinha da América Winona Ryder).

O clima pesado de paranóia que perpassa toda a produção já sucitou as mais diversas comparações. Filmes como Repulsa ao sexo (de Roman Polanski), Videodrome (de David Cronnenberg) e A hora do lobo (de Ingmar Bergman) são só alguns exemplos da cartilha que foi seguida pelo diretor estadunidense. No mais, me parece também pertinente a comparação com A metamorfose, do escritor tcheco Franz Kafka, no que tange à transfiguração de um cidadão pacato em um "monstro horrendo". Nina possui feridas nas costas em que, aos poucos, vão surgindo penas. Sua transformação é gradual e psicológica, mas o diretor a metaforiza de modo nada sutil através de efeitos visuais que vão transformando a textura da pele da personagem e alterando a cor de seus olhos. Só ficou faltando dar-lhe um enorme bico para termos, assim, um Gregor Samsa moderno. Graças aos céus, isso não foi feito!

Está muito claro que Aronofsky se cercou de ótimas referências para alicerçar sua obra. Seu método pretendeu e conseguiu atingir um alto grau de qualidade técnica. Contudo, assim como a Nina, falta-lhe a genialidade de seus mestres na transposição do desespero para a plateia. Se em "Réquiem" a montagem clipada auxiliava na exposição da atmosfera delirante em que viviam os junkies, em Cisne Negro o máximo que ele consegue com a fotografia escura de Michael Libatike e a câmera colada nos atores são alguns sustinhos bem ao estilo A hora do pesadelo. Logo, a ideia de cineasta dos excessos pode ganhar uma nova acepção bem menos elogiosa.

Nina quis alçar um grande voo e se esborrachou. Aronofsky também se lançou, sem medo, tal como seus personagens, em busca de um objetivo. Porém, seu lado cisne negro bateu asas e também não voou. Nota: 6,0

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Ainda sim Buñuel

Pilar maior do surrealismo cinematográfico, Luis Buñuel constrói com extrema elegância e competência mais um retrato fiel do fracasso moral burguês neste filme que, na construção do enredo, pouco remete aos seus trabalhos mais famosos. A predileção por contar uma história de forma linear pode fazer com que muitos não o considerem parte do movimento encabeçado pelo cineasta. No entanto, temas como o já citado vazio burguês, o sexo (usado muitas vezes para fugir desse vazio) e a crítica ao clericalismo continuam tendo presença marcante.
Obra de 1964, ano em que Buñuel voltava à Europa após anos radicado no México, Diário de uma camareira (Le journal d'une femme de chambre, no original)conta a história de Celestine, uma empregada que chega para trabalhar na mansão de uma rica família contituída pelo casal Monteil e velho pai da dona da casa. Aliás, cuidar do velho é sua maior incumbência. Contudo, ela vai descobrir que trabalhoso mesmo vai ser administrar a implicância da patroa e fugir das investidas do libidinoso Sr. Monteil, uma taradão enveterado que não aguenta mais a frieza glacial da esposa.
Quase nada além disso nos lembra o estilo desconcertante do diretor. Não há na sua forma elementos que o liguem, por exemplo, a "O anjo exterminador", obra máxima que o consagrou como um dos maiores da história. Talvez por se tratar de um diário - não na acepção fiel do termo - e por falar de uma rotina tão massante, Buñuel tenha preferido evitar o tom mais insólito (com exceção da curiosa obsessão por sapatos do velho Monteil) em busca de prosaísmo aterrador que pode surpreender os que conhecem seus trabalhos anteriores. Os planos e a bela fotografia (luminosa, com poucos contrastes)revelam um encaixe perfeito entre conteúdo e opções estéticas.
Mas é quando uma menina é assassinada no bosque da propriedade dos Monteil que Buñuel mostra sua genialidade. Numa clara alusão à história da Chapeuzinho Vermelho, ele nos expõe que numa atmosfera tão cheia de desejos reprimidos não há lugar para a pureza e a inocência. Celestine entende o recado e começa a lançar mão de uma malícia até então desconhecida por nós, com o intuito de descobrir a verdadeira identidade do Lobo Mau. Seu ardil final é a prova de que lobos somos todos. Nota: 7,0

domingo, 2 de janeiro de 2011

Simples assim

Existem filmes que não precisam de muita coisa para deixar o espectador feliz. Eles nos mostram que, às vezes, a simplicidade é a melhor qualidade de uma produção. Projetos como Por uma vida melhor (Away we go, no original), do diretor inglês Sam Mendes (responsável pelo premiado Beleza Americana e pela obra-prima Estrada para a Perdição), acertam no seu pacto com a humildade. Não há grandes astros, reviralvoltas mirabolantes no roteiro e tão pouco efeitos visuais revolucionários que façam o público ter espasmos nas poltronas do cinema. O que há é uma história agradável, bons atores nos papéis certos e uma trilha folk pra lá de simpática.
O ponto de partida deste road movie se dá quando Burt e sua namorada grávida Verona decidem chutar o balde de suas vidas medíocres e ir em busca de um lugar onde o novo clã possa crescer e se multiplicar. A ideia é visitar parentes e amigos para que, assim, eles identifiquem qual o melhor modelo de família a seguir. Não demora muito para o casal de protagonistas, vividos com muita graça por John Krasinski e Maya Rudolph, entenda que a família perfeita não existe.
Embora o ritmo das situações criadas pelos roteiristas Dave Eggers e Vendela Vida demore um pouco a engrenar, com exceção da excelente participação de Catherine O'Hara e Jeff Daniels, como os pais excêntricos de Burt, é impossível se empedernir diante do percurso cativante exposto na tela.
No entanto, engana-se quem acredita que Sam Mendes abandonou sua verve crítica em relação ao american way of life, tema tão caro a sua obra. Mesmo um tanto diluídos na candura dos personagens principais, a acidez e o amargor de Foi apenas um sonho, seu último drama famíliar, ainda se fazem presentes em vários momentos. Ao final desta viagem, o cineasta parace querer nos dizer que estamos sempre voltando para algum lugar e que um lar não possui moldes pré-determinados, existindo sempre onde houver pessoas dispostas a compartilhar sonhos. Nota: 7,0

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Cinema cheio de som e fúria

Certa vez um taciturno rei Macbeth proferiu a seguinte sentença: “A vida é um conto narrado por um idiota, cheio de som e fúria, significando nada.”. As palavras do protagonista da clássica obra de Shakespeare bem que poderiam ser aplicadas aos filmes de Stanley Kubrick.
Talvez como nenhuma outra, a filmografia do cineasta americano buscou inventariar o que há mais instintivo nos seres humanos. Até mesmo quando retratou a aristocracia da Era Vitoriana em “Barry Lyndon” (1975), ele não se eximiu de expor a irracionalidade “classuda” de um civilizado duelo de pistolas entre convivas. A violência é tratada em seus projetos como algo intrínseco à nossa natureza.
Sua capacidade de mexer com as sensações da plateia também é notável. Como poucos, Kubrick utilizou todos os recursos semióticos à disposição do cinema, sem nunca querer parecer performático. A destreza com que articula sons e imagens pode ser comprovada tanto numa viagem transcendental, por exemplo, na forma como ele põe naves espaciais para bailar, no infinito, ao som de “No Belo Danúbio Azul”, de Johann Strauss, em “2001 – Uma Odisseia” no Espaço (1968), quanto na valorização da simplicidade em colocar o pequeno Danny pedalando, ao som das rodas de seu velocípede, no assoalho do misterioso hotel em “O iluminado” (1980). É latente sua preocupação com casamento perfeito entre som e imagem.
Por ser este blog um veículo regido por uma banda rock (gênero raivoso por natureza) e para atender ao clamor dos leitores, achei interessante falar deste diretor que aliou tão bem música e violência no cinema. Neste sentido,“Laranja Mecânica” (1971) é, talvez, o ponto de interseção. Baseado no romance de Anthony Burgess, o longa trata de um futuro dominado por arruaceiros que passam o tempo cometendo todo tipo de atrocidades. Nada de diferente até aí. O curioso é que Alex (Malcolm MacDowell), líder de uma dessas gangues, é um jovem apaixonado por música, em especial a 9ª Sinfonia de Beethoven. Este, aliás, é apelidado pelo delinquente de “o magnífico Ludwig van” tamanha é sua admiração.
A música, já foi dito, serve para amansar as feras – talvez, por isso esteja presente até nas estações de metrô. No caso de Alex, ela é o complemento ideal para sua satisfação enquanto comete o que ele chama de “a boa e velha ultraviolência”. Não à toa, o rapaz invade a casa de um reacionário escritor e estupra sua mulher enquanto cantarola “Sing in the rain”, canção imortalizada no célebre musical da década de 50. Na verdade, o que temos nesta sequência é um duplo estupro: o da mulher e o da canção. Da mesma forma que Rubem Fonseca nos advertiu, em seu famoso conto “Intestino grosso”, que, na atual conjuntura das grandes cidades, “não dá mais pra Diadorin”, Kubrick parece querer nos dizer que, daqui para frente, também não dá mais “pra” Gene Kelly.
Na segunda metade de “A Clockwork Orange” (no original), Alex é preso e, louco para ganhar de volta sua liberdade, se candidata à cobaia de um novo tratamento antiviolência. Após ingerir vários coquetéis de drogas e assistir ininterruptamente a inúmeros filmes cheios de cenas de barbárie, ele se considera recuperado. Em cena que mais parece tirada de um programa de auditório, o “saudável” Alex é exposto a situações de violência e luxúria as quais, agora, lhe causam náuseas horrendas. Seu corpo, portanto, reage automaticamente ao mal. “Ele não tem escolha! Onde está o livre arbítrio?”, brada alguém da comissão avaliadora do novo sistema. “Ele está pronto para a vida em sociedade.”, sentencia o chefe da instituição. Enfim, a besta está domesticada.
Há, no entanto, uma sequela com a qual o rapaz não contava. Durante o tratamento, tocava em um dos filmes exibidos a sua estimada 9ª de Beethoven. Os médicos não deram a menor trela para os apelos desesperados do jovem que gritava: “Não! O magnífico Ludwig van, não!” e, munidos de seus olhos atentos e bloquinhos de papel em branco, puseram-se à sádica observação científica. Dessa forma, o prazer se transforma em “horror show”.
Assim, Kubrick mostra que a atração pelo grotesco e pelo sublime está presente no espírito humano de modo indissociável. E, pondo os desprezíveis infratores da lei ao alcance de seu controle remoto, este governo totalitário, preocupado somente com os crescentes índices de criminalidade, conseguiu aquilo que os governos anteriores vem tentando realizar desde a Revolução Industrial: transformar homens em máquinas insensíveis. Alex curtia espancar mendigos, mas venerava música clássica. Isto, segundo o diretor, é o demasiadamente humano.
É inegável que, ao retratar a vida nua e crua (palavra esta que, etimologicamente, originou o termo “cruel”), os filmes de Stanley Kubrick , com ou sem narrador, sejam cheios de som e fúria. Contudo, nunca poderemos dizer que eles não significam nada. Nota: 9,0

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Bosch contemporâneo

O cinema proposto pelo dinamarquês Lars von Trier é daqueles que pode causar excitação em uns e repulsa em outros, mas uma coisa é certa: o espectador jamais ficará indiferente ao que se passa na tela.
Ganhando destaque no cenário mundial desde o premiado Europa (1990), o cineasta parece ter sido o único que sobreviveu com o fim do Dogma 95, movimento que propunha um cinema avesso aos artificialismos próprios dos produtos hollywoodianos. Aliás, foi ao subverter um dos gêneros mais característicos da Era de Ouro de Hollywood, o musical, que Lars viu sua obra ser encarada como uma das mais instigantes da atualidade. Dançando no escuro (2001), que traz uma Bjork potente não só na voz estreando como atriz, joga melancolia e pessimismo no confete eternizado por grandes produções como Cantando na chuva e Sinfonia em Paris.
Dando um tempo de seu projeto sobre a sociedade americana - que começou com Dogville (2003) e seguiu com Manderlay (2004) - o cineasta volta às rodas de conversa de cinéfilos do mundo todo com este seu Anticristo. Fazia muito tempo que um filme não causava tanta polêmica por conta de suas chocantes cenas de sexo (algumas vezes explìcito) e pelo clima desolador de sua trama.
Assim como fez com as duas partes da saga de Grace, o diretor optou por dividir o enredo do longa em capítulos, tendo seu prólogo como um dos momentos mais belos do cinema nos últimos anos. Daí em diante, acompanhamos o processo de degradação de um casal que sofre horrores com a culpa pela morte de seu único filho e sua tentativa de superar o trauma.
Vividos por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg (vencedora do Prêmio de Melhor Atriz em Cannes), os únicos personagens da história resolvem se refugiar num sítio sugestivamente chamado Éden (impossível não pensar em Adão e Eva) para sair de seu inferno pessoal. Ele é psicólogo e acha que pode, através de um distanciamento improvável, retirar a dor de dentro de sua esposa, quem mais se abateu com a tragédia.
No entanto, percebemos que sua inglória missão está fadada ao fracasso devido à impossibilidade da mulher em se entregar mais uma vez ao prazer e à alegria. O já citado prólogo, com uso perfeito da câmera lenta e da música de Händel, mostra a simultaneidade da morte do menino com o casal fazendo amor, com direito a um close do rosto da mulher no instante do orgasmo. Logo, enquanto o filho caía da janela aberta pelo vento, a mãe se entregava aos prazeres da carne. O sexo ganha aqui facetas entre prazer e dor difíceis de administrar.
Com planos abertos que remetem aos quadros do pintor flamengo Hieronymus Bosch (1450-1516), em que tentação e pecado serviam como tema principal, o filme expõe a fragilidade do ser humano e a sua propensão para a autodestruição. O discernimento racional vai sucumbindo diante do instinto animal inerente ao homo sapiens, culminando em atos de mutilação que beiram o grotesco. Assim, não é de se estranhar o fato de o marido em certos momentos se comunicar com os bichos da floresta.
Portanto, está claro que Lars von Trier não quer unanimidade - que, alías, já foi dito, é burra. Com sua estética do choque ele pretende sacudir o pacato cidadão que há em nós, trabalhando a questão humana de forma visceral e sem medo de causar turbulência em voos tranquilos. Cinema fértil, apto a gerar discussões. Nota: 8,0

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Magia e Técnica, Arte e Política

A fábrica de sonhos se superou. Avatar faz surgir em nossas mentes a seguinte pergunta: o cinema chegou ao ponto em que projetos não ficarão mais engavetados, esperando a técnica alcançar a imaginação? Curioso pensar nisso em relação ao longa-metragem em questão, pois James “Titanic” Cameron esperou doze anos até que a indústria cinematográfica evoluísse o bastante para dar conta da criação de sua Pandora.
Depois de encher oceanos de lágrimas e ganhar rios de dinheiro com sua epopéia náutica, o criador dos dois primeiros filmes da franquia O exterminador do futuro reaparece, após muita especulação, com o maior espetáculo visual deste início de século.
Embora possa parecer uma mistura de Thundercats, Pocahontas e, por que não, Iracema, a trama, cheia de clichês, é mera formalidade narrativa a serviço da mais alta tecnologia já criada em 3D. Para tanto, o cineasta recorreu aos estúdios de Peter Jackson (da trilogia O Senhor dos Anéis) na Nova Zelândia, que já haviam inovado nos efeitos especiais com King Kong (2005), na construção de uma câmera especial para a ambiciosa empreitada futurista. O resultado é algo que podemos, na falta de palavra melhor, chamar de embasbacante – a “cor local” deste Novo Mundo mágico é tão variada e rica que tem o poder de encantar até um daltônico.
Trata-se de mais um filme que recorre ao fantástico para falar de problemas bem palpáveis a nós, pobres (e podres) seres de carne. O imperialismo selvagem que pulveriza nativos atrás de riquezas naturais nos é bem familiar e é exposto de maneira um tanto quanto simplista. A grande vedete aqui é, realmente, o visual exposto na tela.
Vamos à historinha: quando seu irmão gêmeo morre, o ex-fuzileiro Jake Sully (Sam Worthington, crescendo a cada papel) é recrutado para se infiltrar no clã dos Na’vi, a fim de colher informações sobre seu modus vivendi e convencê-los a uma rendição pacífica. Ao entrar no corpo de um desses integrantes do Blue Man Group versão felina, Jake, que é paraplégico, fica seduzido com a ideia de viver saltando por aí, em harmonia com a floresta e com os exóticos animais do lugar. Contudo, rapadura é doce, mas não é mole, já dizia o ditado. O implacável Quaritch (Stephen Lang, no limite entre a potência e a caricatura), militar incumbido de devastar os Na’vi do mapa, vem tal qual um Mumm-Ra de farda, acabar com a festa e mostrar o quanto a força bruta é desnecessária num processo civilizatório.
Avatar vai deixar muita gente de queixo caído com suas apoteóticas cenas. A ideia de grandiosidade atinge um ponto sem precedentes e, talvez por isso, tenha faltado um pouco de apreço na elaboração de alguma surpresa para além das imagens. Mas, há pelo menos uma reiteração pertinente: James Cameron faz ressurgir aquela armadura gigante utilizada por Sigourney Weaver (que também integra o elenco deste projeto) na antológica luta final de Aliens, o resgate. Se ao vestir o traje, a Tenente Ripley iguala suas forças com as do asqueroso alienígena, no longa de 1986, desta vez é o vilão Quaritch quem se fará valer do recurso para dar cabo dos nossos smufs super-desenvolvidos, expondo os dois lados da relação homem/máquina.
Teria, com isso, o cineasta caído numa baita contradição? Afinal, ele lança mão de todos os recursos tecnológicos disponíveis para falar de mocinhos que lutam munidos de arco-e-flecha contra armas de destruição em massa. No entanto, quando modernas aeronaves sucumbem ao ataque de incríveis criaturas aladas, fica claro que Cameron parece ter mudado de lado nesta batalha entre ciência avançada e o desconhecido.
Se, no título destes escritos faço alusão ao notável livro de Walter Benjamin, no qual constata a perda do caráter único da obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica, é para dizer que Avatar, com suas mais de trinta cópias espalhadas pela cidade, reafirma o único conceito de “aura” seguido pelo cinemão americano de hoje e de “um futuro não muito distante”: o da experiência (única) do espetáculo. Nota: 7,0

sábado, 24 de julho de 2010

O homem que influencia demais

O cineasta franco-suiço Jean-Luc Godard já disse que Alfred Hitchcock foi o único poeta maldito a conhecer o sucesso. Isto talvez se deva ao fato de ele ter sido o diretor que melhor conseguiu conciliar arte e entretenimento ao longo de seus mais de sessenta filmes.
Uma de suas inúmeras frases célebres dizia que a duração de uma projeção deve se adequar a capacidade de resistência da bexiga humana. Isso mostra que, diferente de muitos artistas que acham que não trabalham para os outros, o inglês bonachão dava uma baita importância àqueles que se sentavam nas poltronas dos cinemas. Além disso, o que diferencia Hitchcock dos demais é justamente sua habilidade ímpar em manipular emoções. Esta era a sua arte. E para tal, ele foi capaz de criar as tomadas mais inusitadas e eletrizantes da história, sem nunca abdicar da profundidade dos personagens que apresenta.
No último mês de abril fez trinta anos que seu corpo rechonchudo exalou o último suspiro e ele ainda faz ventar no estilo narrativo de diversos filmes da recente safra cinematográfica mundo a fora. Não importa se o diretor é estreante (David Kroepp, em A Janela Secreta) ou tarimbado (Robert Zemeckis, em Revelação e David Fincher, em O quarto do pânico), o fantasma do “hitchcockiano” está vez ou outra pairando por diversos sets. Se o produto é fruto da intenção de se fazer uma homenagem séria e honrosa ou do mais descarado oportunismo, aí já é outra história. Geralmente, o resultado ou é Brian De Palma ou é M. Night Shyamalan. Há gosto para tudo.

O enorme e necessário preâmbulo acima tem como intuito contextualizar a chagada às telas brasileiras da mais nova prova de que o “toque de Hitch” nunca sai de moda. Com Ilha do medo (Shutter Island, no original), o veterano Martin Scorsese busca atualizar seu estudo sobre a violência pondo na linha de frente Um corpo que cai – obra máxima de Hitchcock – e O iluminado, de Stanley Kubrick, como principais referências. Do primeiro, Scorsese filtra os efeitos de uma obsessão na vida de um detetive (aqui James Stewart dá lugar a um convincente Leonardo DiCaprio) que é encarregado de investigar o desaparecimento de uma assassina dentro de um hospital psiquiátrico. Do segundo, aquele que é considerado o maior diretor americano vivo (Steven Spielberg, Clint Eastwood e Woody Allen discordam) transpõe a sufocante sensação de isolamento, que fazia do Hotel Overlook quase um personagem, para a tal Ilha Shutter do título em inglês.
Desta equação explosiva, eu esperava o evento do ano, afinal, sou fã incondicional dos três. No entanto, o que temos é só um trabalho acima da média para os padrões atuais de Hollywood, mas que carece exatamente daquilo que os homenageados mais dispunham: inventividade.
Na verdade, faltou a Scorsese – a terceira ponta do triângulo – aquele coelho que sai da cartola e surpreende a todos na plateia, e que em Cabo do medo – seu primeiro flerte com a obra do mestre – procriava aos montes. Se não fosse a excepcional montagem de Thelma Schoonmaker (colaboradora habitual do diretor) e a arrepiante trilha sonora (com supervisão de Robbie Robertson, ex-The Band), o longa-metragem, baseado no romance Paciente 67, de Dennis Lehanne, seria mais uma “homenagem” que nada acrescenta ao gênero que elegeu Hitchcock seu ícone supremo.
Aliás, a expressão pra lá de batida “mestre do suspense” está para Alfred Hitchcock como a expressão “maior escritor brasileiro” está para Machado de Assis. Funcionam apenas como rótulos redutores de talentos monstruosos acima de qualquer classificação. Além dos imitadores, o que ambos têm em comum é o modo irônico como enxergam aqueles que são alvo de suas “lentes”.


O cinema do autor das duas versões de O homem que sabia demais está para muito além do mero suspense. Com uma inquietação formal que continua ditando caminhos estéticos, ele promove uma análise do comportamento humano frente às contradições da vida, seja em situações apavorantes entre algozes e vítimas, seja em situações aparentemente prosaicas entre homens e mulheres. Diferente de Kubrick e Scorsese (nessa ordem), sua elegância britânica apenas insinua a violência, jamais a escancara. A sequência do assassinato em Disque M para matar, por exemplo, não despende uma única gota de sangue (mesmo havendo um tesourão em cena!) e consegue ser uma das mais lembradas de todos os tempos.
Parece que Godard tinha realmente razão e, seguindo seu raciocínio, podemos dizer que todos os que visam obter sucesso comercial, sem descuidar da opinião dos especialistas, recorrem ao Manual Hitchcock para fazer cinema. Às vezes dá certo, às vezes não. O fato é que, com Ilha do medo, Martin Scorsese conseguiu a maior bilheteria de um filme seu em décadas nos EUA, com pouquíssimos críticos torcendo o nariz. Ninguém pode culpá-lo. Contudo, esperava-se um pouco mais de coragem de alguém que domina tão bem o ofício. Nota: 6,5