Existem filmes que não precisam de muita coisa para deixar o espectador feliz. Eles nos mostram que, às vezes, a simplicidade é a melhor qualidade de uma produção. Projetos como Por uma vida melhor (Away we go, no original), do diretor inglês Sam Mendes (responsável pelo premiado Beleza Americana e pela obra-prima Estrada para a Perdição), acertam no seu pacto com a humildade. Não há grandes astros, reviralvoltas mirabolantes no roteiro e tão pouco efeitos visuais revolucionários que façam o público ter espasmos nas poltronas do cinema. O que há é uma história agradável, bons atores nos papéis certos e uma trilha folk pra lá de simpática.domingo, 2 de janeiro de 2011
Simples assim
Existem filmes que não precisam de muita coisa para deixar o espectador feliz. Eles nos mostram que, às vezes, a simplicidade é a melhor qualidade de uma produção. Projetos como Por uma vida melhor (Away we go, no original), do diretor inglês Sam Mendes (responsável pelo premiado Beleza Americana e pela obra-prima Estrada para a Perdição), acertam no seu pacto com a humildade. Não há grandes astros, reviralvoltas mirabolantes no roteiro e tão pouco efeitos visuais revolucionários que façam o público ter espasmos nas poltronas do cinema. O que há é uma história agradável, bons atores nos papéis certos e uma trilha folk pra lá de simpática.quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Cinema cheio de som e fúria
Certa vez um taciturno rei Macbeth proferiu a seguinte sentença: “A vida é um conto narrado por um idiota, cheio de som e fúria, significando nada.”. As palavras do protagonista da clássica obra de Shakespeare bem que poderiam ser aplicadas aos filmes de Stanley Kubrick.Talvez como nenhuma outra, a filmografia do cineasta americano buscou inventariar o que há mais instintivo nos seres humanos. Até mesmo quando retratou a aristocracia da Era Vitoriana em “Barry Lyndon” (1975), ele não se eximiu de expor a irracionalidade “classuda” de um civilizado duelo de pistolas entre convivas. A violência é tratada em seus projetos como algo intrínseco à nossa natureza.
Sua capacidade de mexer com as sensações da plateia também é notável. Como poucos, Kubrick utilizou todos os recursos semióticos à disposição do cinema, sem nunca querer parecer performático. A destreza com que articula sons e imagens pode ser comprovada tanto numa viagem transcendental, por exemplo, na forma como ele põe naves espaciais para bailar, no infinito, ao som de “No Belo Danúbio Azul”, de Johann Strauss, em “2001 – Uma Odisseia” no Espaço (1968), quanto na valorização da simplicidade em colocar o pequeno Danny pedalando, ao som das rodas de seu velocípede, no assoalho do misterioso hotel em “O iluminado” (1980). É latente sua preocupação com casamento perfeito entre som e imagem.
Por ser este blog um veículo regido por uma banda rock (gênero raivoso por natureza) e para atender ao clamor dos leitores, achei interessante falar deste diretor que aliou tão bem música e violência no cinema. Neste sentido,“Laranja Mecânica” (1971) é, talvez, o ponto de interseção. Baseado no romance de Anthony Burgess, o longa trata de um futuro dominado por arruaceiros que passam o tempo cometendo todo tipo de atrocidades. Nada de diferente até aí. O curioso é que Alex (Malcolm MacDowell), líder de uma dessas gangues, é um jovem apaixonado por música, em especial a 9ª Sinfonia de Beethoven. Este, aliás, é apelidado pelo delinquente de “o magnífico Ludwig van” tamanha é sua admiração.
A música, já foi dito, serve para amansar as feras – talvez, por isso esteja presente até nas estações de metrô. No caso de Alex, ela é o complemento ideal para sua satisfação enquanto comete o que ele chama de “a boa e velha ultraviolência”. Não à toa, o rapaz invade a casa de um reacionário escritor e estupra sua mulher enquanto cantarola “Sing in the rain”, canção imortalizada no célebre musical da década de 50. Na verdade, o que temos nesta sequência é um duplo estupro: o da mulher e o da canção. Da mesma forma que Rubem Fonseca nos advertiu, em seu famoso conto “Intestino grosso”, que, na atual conjuntura das grandes cidades, “não dá mais pra Diadorin”, Kubrick parece querer nos dizer que, daqui para frente, também não dá mais “pra” Gene Kelly.



Há, no entanto, uma sequela com a qual o rapaz não contava. Durante o tratamento, tocava em um dos filmes exibidos a sua estimada 9ª de Beethoven. Os médicos não deram a menor trela para os apelos desesperados do jovem que gritava: “Não! O magnífico Ludwig van, não!” e, munidos de seus olhos atentos e bloquinhos de papel em branco, puseram-se à sádica observação científica. Dessa forma, o prazer se transforma em “horror show”.
Assim, Kubrick mostra que a atração pelo grotesco e pelo sublime está presente no espírito humano de modo indissociável. E, pondo os desprezíveis infratores da lei ao alcance de seu controle remoto, este governo totalitário, preocupado somente com os crescentes índices de criminalidade, conseguiu aquilo que os governos anteriores vem tentando realizar desde a Revolução Industrial: transformar homens em máquinas insensíveis. Alex curtia espancar mendigos, mas venerava música clássica. Isto, segundo o diretor, é o demasiadamente humano.
É inegável que, ao retratar a vida nua e crua (palavra esta que, etimologicamente, originou o termo “cruel”), os filmes de Stanley Kubrick , com ou sem narrador, sejam cheios de som e fúria. Contudo, nunca poderemos dizer que eles não significam nada. Nota: 9,0
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Bosch contemporâneo
O cinema proposto pelo dinamarquês Lars von Trier é daqueles que pode causar excitação em uns e repulsa em outros, mas uma coisa é certa: o espectador jamais ficará indiferente ao que se passa na tela.Ganhando destaque no cenário mundial desde o premiado Europa (1990), o cineasta parece ter sido o único que sobreviveu com o fim do Dogma 95, movimento que propunha um cinema avesso aos artificialismos próprios dos produtos hollywoodianos. Aliás, foi ao subverter um dos gêneros mais característicos da Era de Ouro de Hollywood, o musical, que Lars viu sua obra ser encarada como uma das mais instigantes da atualidade. Dançando no escuro (2001), que traz uma Bjork potente não só na voz estreando como atriz, joga melancolia e pessimismo no confete eternizado por grandes produções como Cantando na chuva e Sinfonia em Paris.

r em se entregar mais uma vez ao prazer e à alegria. O já citado prólogo, com uso perfeito da câmera lenta e da música de Händel, mostra a simultaneidade da morte do menino com o casal fazendo amor, com direito a um close do rosto da mulher no instante do orgasmo. Logo, enquanto o filho caía da janela aberta pelo vento, a mãe se entregava aos prazeres da carne. O sexo ganha aqui facetas entre prazer e dor difíceis de administrar.sexta-feira, 30 de julho de 2010
Magia e Técnica, Arte e Política
Vamos à historinha: quando seu irmão gêmeo morre, o ex-fuzileiro Jake Sully (Sam Worthington, crescendo a cada papel) é recrutado para se infiltrar no clã dos Na’vi, a fim de colher informações sobre seu modus vivendi e convencê-los a uma rendição pacífica. Ao entrar no corpo de um desses integrantes do Blue Man Group versão felina, Jake, que é paraplégico, fica seduzido com a ideia de viver saltando por aí, em harmonia com a floresta e com os exóticos animais do lugar. Contudo, rapadura é doce, mas não é mole, já dizia o ditado. O implacável Quaritch (Stephen Lang, no limite entre a potência e a caricatura), militar incumbido de devastar os Na’vi do mapa, vem tal qual um Mumm-Ra de farda, acabar com a festa e mostrar o quanto a força bruta é desnecessária num processo civilizatório.
Avatar vai deixar muita gente de queixo caído com suas apoteóticas cenas. A ideia de grandiosidade atinge um ponto sem precedentes e, talvez por isso, tenha faltado um pouco de apreço na elaboração de alguma surpresa para além das imagens. Mas, há pelo menos uma reiteração pertinente: James Cameron faz ressurgir aquela armadura gigante utilizada por Sigourney Weaver (que também integra o elenco deste projeto) na antológica luta final de Aliens, o resgate. Se ao vestir o traje, a Tenente Ripley iguala suas forças com as do asqueroso alienígena, no longa de 1986, desta vez é o vilão Quaritch quem se fará valer do recurso para dar cabo dos nossos smufs super-desenvolvidos, expondo os dois lados da relação homem/máquina.
Teria, com isso, o cineasta caído numa baita contradição? Afinal, ele lança mão de todos os recursos tecnológicos disponíveis para falar de mocinhos que lutam munidos de arco-e-flecha contra armas de destruição em massa. No entanto, quando modernas aeronaves sucumbem ao ataque de incríveis criaturas aladas, fica claro que Cameron parece ter mudado de lado nesta batalha entre ciência avançada e o desconhecido.
sábado, 24 de julho de 2010
O homem que influencia demais
O cineasta franco-suiço Jean-Luc Godard já disse que Alfred Hitchcock foi o único poeta maldito a conhecer o sucesso. Isto talvez se deva ao fato de ele ter sido o diretor que melhor conseguiu conciliar arte e entretenimento ao longo de seus mais de sessenta filmes.Uma de suas inúmeras frases célebres dizia que a duração de uma projeção deve se adequar a capacidade de resistência da bexiga humana. Isso mostra que, diferente de muitos artistas que acham que não trabalham para os outros, o inglês bonachão dava uma baita importância àqueles que se sentavam nas poltronas dos cinemas. Além disso, o que diferencia Hitchcock dos demais é justamente sua habilidade ímpar em manipular emoções. Esta era a sua arte. E para tal, ele foi capaz de criar as tomadas mais inusitadas e eletrizantes da história, sem nunca abdicar da profundidade dos personagens que apresenta.
No último mês de abril fez trinta anos que seu corpo rechonchudo exalou o último suspiro e ele ainda faz ventar no estilo narrativo de diversos filmes da recente safra cinematográfica mundo a fora. Não importa se o diretor é estreante (David Kroepp, em A Janela Secreta) ou tarimbado (Robert Zemeckis, em Revelação e David Fincher, em O quarto do pânico), o fantasma do “hitchcockiano” está vez ou outra pairando por diversos sets. Se o produto é fruto da intenção de se fazer uma homenagem séria e honrosa ou do mais descarado oportunismo, aí já é outra história. Geralmente, o resultado ou é Brian De Palma ou é M. Night Shyamalan. Há gosto para tudo.

O enorme e necessário preâmbulo acima tem como intuito contextualizar a chagada às telas brasileiras da mais nova prova de que o “toque de Hitch” nunca sai de moda. Com Ilha do medo (Shutter Island, no original), o veterano Martin Scorsese busca atualizar seu estudo sobre a violência pondo na linha de frente Um corpo que cai – obra máxima de Hitchcock – e O iluminado, de Stanley Kubrick, como principais referências. Do primeiro, Scorsese filtra os efeitos de uma obsessão na vida de um detetive (aqui James Stewart dá lugar a um convincente Leonardo DiCaprio) que é encarregado de investigar o desaparecimento de uma assassina dentro de um hospital psiquiátrico. Do segundo, aquele que é considerado o maior diretor americano vivo (Steven Spielberg, Clint Eastwood e Woody Allen discordam) transpõe a sufocante sensação de isolamento, que fazia do Hotel Overlook quase um personagem, para a tal Ilha Shutter do título em inglês.
Desta equação explosiva, eu esperava o evento do ano, afinal, sou fã incondicional dos três. No entanto, o que temos é só um trabalho acima da média para os padrões atuais de Hollywood, mas que carece exatamente daquilo que os homenageados mais dispunham: inventividade.
Na verdade, faltou a Scorsese – a terceira ponta do triângulo – aquele coelho que sai da cartola e surpreende a todos na plateia, e que em Cabo do medo – seu primeiro flerte com a obra do mestre – procriava aos montes. Se não fosse a excepcional montagem de Thelma Schoonmaker (colaboradora habitual do diretor) e a arrepiante trilha sonora (com supervisão de Robbie Robertson, ex-The Band), o longa-metragem, baseado no romance Paciente 67, de Dennis Lehanne, seria mais uma “homenagem” que nada acrescenta ao gênero que elegeu Hitchcock seu ícone supremo.
Aliás, a expressão pra lá de batida “mestre do suspense” está para Alfred Hitchcock como a expressão “maior escritor brasileiro” está para Machado de Assis. Funcionam apenas como rótulos redutores de talentos monstruosos acima de qualquer classificação. Além dos imitadores, o que ambos têm em comum é o modo irônico como enxergam aqueles que são alvo de suas “lentes”.



O cinema do autor das duas versões de O homem que sabia demais está para muito além do mero suspense. Com uma inquietação formal que continua ditando caminhos estéticos, ele promove uma análise do comportamento humano frente às contradições da vida, seja em situações apavorantes entre algozes e vítimas, seja em situações aparentemente prosaicas entre homens e mulheres. Diferente de Kubrick e Scorsese (nessa ordem), sua elegância britânica apenas insinua a violência, jamais a escancara. A sequência do assassinato em Disque M para matar, por exemplo, não despende uma única gota de sangue (mesmo havendo um tesourão em cena!) e consegue ser uma das mais lembradas de todos os tempos.
Parece que Godard tinha realmente razão e, seguindo seu raciocínio, podemos dizer que todos os que visam obter sucesso comercial, sem descuidar da opinião dos especialistas, recorrem ao Manual Hitchcock para fazer cinema. Às vezes dá certo, às vezes não. O fato é que, com Ilha do medo, Martin Scorsese conseguiu a maior bilheteria de um filme seu em décadas nos EUA, com pouquíssimos críticos torcendo o nariz. Ninguém pode culpá-lo. Contudo, esperava-se um pouco mais de coragem de alguém que domina tão bem o ofício. Nota: 6,5
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Um diretor de aluguel
Hoje em dia, há poucas cinematografias que podemos chamar de autorais. Raros são os diretores que tentam imprimir um pouco de singularidade em seus projetos. O cinemão americano sempre foi muito eficaz em oferecer filmes pasteurizados em que pouco importava o nome por trás das câmeras, e até mesmo os talentos estrangeiros que lá chegam não conseguem manter sua assinatura, reprimindo, assim, sua verve artística em prol de uma uniformização lucrativa. Aqueles que conseguem seguir na contramão desse movimento reducionista acabam se tornando verdadeiros oásis em meio ao deserto criativo que impera não só no cinema, mas na arte contemporânea.Tim Burton é um desses caras cujo nome já virou sinônimo de um jeito específico de composição. Desde seu surgimento com As Grandes Aventuras de Pee Wee (1985) até a sua afirmação como autor em Edward Mãos de Tesoura (1990) - ainda hoje um de seus melhores trabalhos - o diretor transformou o visual gótico de seus longas numa marca registrada. Alternando projetos mais pessoais (Ed Wood) com grandiosas empreitadas (Batman e Batman – O retorno), sempre foi possível ao olhar mais atento detectar a sua “presença”.
No entanto, nos últimos anos parece que passamos a conhecer um outro Tim Burton. Um cineasta que ainda mantém um rigor técnico, mas que suplanta sua criatividade diante das imposições dos grandes produtores. Foi assim com o decepcionante Planeta dos Macacos (2001), e o mesmo acontece com sua visão de Alice no País das Maravilhas – curiosamente, releituras que geraram enorme expectativa tamanha a moral do diretor.
O carnaval pretensamente lúdico desta nova adaptação para as telas dos livros de Lewis Carroll (foi feita uma junção de enredos e personagens entre a obra já citada e Alice através do espelho) nem de longe traz os melhores momentos da parceria entre Tim e seu ator/fetiche Johnny Depp, iniciada há dezesseis anos com “Edward”. É clara a intenção de fazer do filme mais um veículo para as excentricidades do ator e, por isso, seu Chapeleiro Maluco ganha mais espaço na trama, recebendo contornos de protagonista.
Soluções técnicas de gosto duvidoso à parte (incluo aí o uso do 3-D), creio que nada decepcione mais do que o roteiro. Saído das mesmas mãos que cunharam a saga de Simba em Rei Leão, este parece feito sob medida para crianças que não podem perder o foco enquanto se deleitam com o arco-íris padrão Disney pintado em cores fortes na tela. Como se isso não bastasse, durante o filme inteiro somos preparados para aquela batalha final entre o bem e o mal que, provavelmente, consta no manual dos filmes de aventura hollywoodianos. Um “clímax” que empolga menos do que qualquer montanha-russa tosca dos parques de Mickey Mouse.
O único alento, talvez, seja a revelação de Mia Wasikowska. A atriz australiana defende com garra uma Alice já crescida às voltas com um casamento arranjado para salvar os negócios da família. Além disso, Helena Boham-Carter (esposa do diretor) está impagável na pele da tresloucada e cabeçuda Rainha Vermelha, mostrando novamente que é uma das atrizes mais interessantes do momento.
Espero que, para os próximos projetos, o bom e velho Tim Burton volte e reviva os instantes de originalidade conseguidos nos ótimos A lenda do cavaleiro sem cabeça (1999) e Peixe Grande (2003), quando o apuro técnico vinha aliado a grandes interpretações e roteiros inspirados. Para tal, será necessário que ele não permita que os magnatas dos grandes estúdios, com interesses meramente mercadológicos, balancem suas cabeças diante de alguma ideia extravagante. Se isso acontecer e algum se meter à besta, tomara que o cineasta tenha coragem suficiente para incorporar a famigerada Rainha Vermelha e gritar bem alto: Cortem-lhe a cabeça! Nota: 4,0
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Pais e filhos
"Esta noite eu tive um sonho. Sonhei que era pai. Não tinha filhos espalhados por aí... era mais uma sensação... Dá para entender? Como quando se sonha que está caindo ou voando... uma sensação de querer abraçar alguém... mas sem saber por quê." 
